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 O que restou de dois dias de viagem a Fátima, saindo cedo e chegando tarde. O que ficou pelo meio resume-se a um longo passeio de carrinha com os pais a fazerem constantes brincadeiras, muitas fotografias, momentos de oração, de reflexão e ainda de descobrimento de locais do país. Esforcei-me para recolher as mais belas fotografias dentro do que me é possível e ao pedir aos meus pais que me captassem no local visitado ora a fotografia ficava torta ora o ângulo não me favorecia de todo. Lamentável mais ainda foi a vontade da minha mãe de nos captar num enorme coração em Fátima, mas inviável, já que uma senhora se decidiu intrometer e passar a fazer parte de uma fotografia que deveria ser unicamente de mãe e filha. De qualquer dos modos, cá estamos e as fotografias foram o que restaram destes dois dias mais algumas recordações físicas e memórias abstractas. 

Interior do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Batalha
Detalhe do exterior do Mosteiro da Batalha
Interior do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Batalha
Fachada do Mosteiro da Batalha
Estátua de D. Nuno Álvares Pereira junto ao Mosteiro da Batalha
Santuário de Fátima
Detalhe da Basílica da Nossa Senhora do Rosário de Fátima
Vista da entrada da basílica da Santíssima Trindade
Exposição "Terra e Céu - Peregrinos e Santos de Fátima"
Capela do Santíssimo Sacramento, Fátima
Vista do Santuário de Fátima pelas costas de São João Paulo II
Detalhe de Aljustrel
Loca do Cabeço
Vista de cima do Calvário Húngaro
Igreja Paroquial de Fátima

A noite já está escura por trás da janela aberta para refrescar o quarto, soam de quando em vez os passos e as conversas de quem se passeia ainda na rua aproveitando a frescura de final de dia. Cá dentro sentada e a escrever sinto saudades de algum tempo em que as palavras me afluíam com grande espontaneidade e surge-me interrogada a ideia de estar deixando fugir a originalidade das palavras e a simplicidade de se ir apontando trechos comuns da vida quotidiana. Não deixo, todavia, de tentar-me a novas frases buscando esperançosamente uma faísca de intensidade criativa. Não cessa a voz interior de falar-me a urgência de gravar os dias especiais, para revive-los toda a eternidade, ficando as imagens, sentimentos e sensações para todo o sempre impressos no coração. 
Existe nestes dias mais ainda a necessidade de ser mais do que se é, se ser o limite do que se é, exagerar-se e tornar-se na plenitude do dom. Agora que a felicidade se vem formando e tornando consistente, a realidade requer uma maior aptidão para ser decalcada como uma fotografia, mas que deixa passar as impressões de tempos de profundo regozijo, para ao serem lidas serem sentidas. Por causa de ti, que me apareceste há tanto e o sentimento aumenta sempre há tão pouco, sempre renovado, sempre mais próspero no íntimo do meu peito. Tu me tens prendido  por um fio ténue, invisível, e sempre forte o suficiente para nos fazer caminhar continuamente um pouco mais na direcção de onde os nossos sonhos se fundam e realizam. Avançando, avanço sempre para ti, para algum lugar onde possa vislumbrar o teu sorriso que irradia afecto. Há nesse momento em que te vejo ao longe ou por entre a multidão uma sensação grandiosa de  atracção pela tua imagem e todas as outras pessoas e paisagens são reportadas para um plano inferior, não me importando com as novidades do mundo, já que me és sempre a maior delas. Olhando-te de longe e depois ao perto sinto nos teus olhos e mais ainda no teu abraço a reconfortante sensação do lar e um aroma tão familiar e agradável capaz de pôr em calma todas as desordens da minha alma. Tenho no teu rosto o rumo do meu destino e parece-me tão suave e doce tal qual a doçura do teu coração.
Dizer o amor que sinto parece-me sempre tão pouco, como havendo cada vez mais tudo aquilo que o transcende, se isso é possível. Existe, para mim, uma serenidade crescente no mundo se posso sentir o bater do teu coração e sabe-lo meu. Todos os esforços e consequentes cansaços desaparecem rapidamente se posso descansar a cabeça no teu ombro e ser recolhida nos teus braços. E logo toda a paisagem me aparece maravilhosa e brilhante em plena tarde de Verão. Uma sensação de bem-estar e um sentimento já de saudades ao olhar-te de novo e saber que te deixo ao final do dia.
Quando regresso da tua presença doce sinto o espírito carregado de novas forças e de uma súbita vontade de renascer para saber desde o início o caminho para ti. Lembro-me ao ir-me, da tua pele suave e do gosto maior de a tocar, de sentir-lhe o cheiro tão próprio e deleitoso. Surgem-se imagens tuas e nossas desde que os tempos começaram a ser bons e penso em como ao ver-te pela primeira vez o meu coração se amoleceu e timidamente se começou lentamente a apaixonar. Creio que a maior verdade é que me fazes bem e tenho sempre um tempo bónus especial para gastar a teu lado. E se acreditas em nós o Futuro só pode dar-nos os melhores anos junto a filhos, junto a netos.
E assim, se perto do castelo dos nossos sonhos te ajoelhas perante mim na penumbra do alto do monte e segurando as minhas mãos, e nelas te apoiando com devoção, me fazes o pedido mais bonito e genuíno, me sai dos lábios o sim mais sincero de quem ama em demasia. Junto-me a ti depois e cresce em mim a consciência de que problema algum se pode opor a paixão tão intensa e afeição vigorosa. Afundo-me no teu abraço como se nele estivesse concentrado a novidade do primeiro e a saudade do último e sinto profundamente toda a alegria de estar bem e estar assente no Presente a aproveita-lo todo. No teu peito há grande amor e incendeia o meu para te amar e te querer sempre mais, já que nenhum aperto de coração pode durar muito quando te vejo sorrindo um sorriso de criança querida que quero impresso nos descendentes nossos.
Eu quero sempre escrever-te da forma mais bonita e agora que  o dia é outro e mesmo assim se vai já caminhando para outra noite, quero ter a destreza para recordar-te em tudo o que sou e escrevo. Recordar essa beleza de ser, de estar, de amar. Que me venha a inspiração, maior a cada dia para que sejas toda a minha prosa e te imprimas no que é meu para me seres sempre interno e eterno. 







Na cidade grande com uma companhia específica e necessária, as duas num dia de Sol. Eu deveria estar de manga curta por causa da sequência da ideia e devido ao céu azul e à sensação de dias de Verão das imagens, mas já não me recordo. Estive tão atarefada em tirar fotografias a tudo o que via que agora elas não me importam para nada e estão perdidas algures onde a minha memória também já se esqueceu. Foi uma jornada quente, porém. E guardo umas lembranças soltas desse dia, de tal forma que as ordenando podia refazer todo o caminho. Mas não seria igual e já não posso pôr-me da mesma forma como estava, porque já esqueci, pois não me retratei. Se os locais continuam os mesmos e eu posso voltar a pisa-los na mesma ordem com que na primeira vez, para que me serve ir se ao menos eu não sei como era mais nessa altura? Não posso sentir o mesmo nunca mais. Quais seriam os sapatos que teria calçado nesse dia? Será que tinha escolhido a camisola da cruz? Já não importa mais e com certeza que ninguém naquele dia terá guardado a minha imagem nos olhos. Fiquei eu com essas figuras de monumentos altos que parecem engolir-nos e vi-os dias e dias seguidos na solidão das ruas e não mais o regozijo foi o mesmo. A esperança dissipou-se rapidamente e o encanto foi-se com o passar dos primeiros tempos de modo que tudo se tornou um esforço. As horas demoram excessivamente tanto a passarem e todos os meus passos foram horríveis e trágicos, sem a consolação da quietude e dos grandes campos que dão vigor a quem os contempla. Todavia preciso de estar onde é necessário e o Inverno logo dará lugar a tempos de mais Sol novamente. Que nasçam em mim esperanças novas! 

Tudo o que se desgasta dói mais nos segundos dias, têm-me acautelado em situações várias, mas os dias correm tão indiferentes que não choram os pássaros pelas nossas desgraças, nem esmorecem os outros por caridade. Estão as cousas tão voltadas para si mesmas que não passa o Sol pelas cortinas de minha casa, e não me aquece o coração desnudo. Estou bem, contudo, numa ténue harmonia, numa neutralidade doce e aprazível, porque é Setembro, o mês das cousas difíceis e toda a folia está já gasta. Encetam novos sossegos dentro de mim agora que a luz principia a arrefecer-se muito suavemente. Tenho miragens a brilharem-me nos olhos e oásis a doirar-me os desertos de dentro, quero dar-lhes a todos o teu nome.
Sinto saudades da tua voz a dizer o que nunca ouvi, e de sentir a força que te corre dentro como o mar que bate robusto nos rochedos e ecoa numa melodia tão natural e admirável. Mas reconheço que não te sei mais do que te imagino e fico-me a admirar de longe como astrónomo vigiando o Cosmos todas as noites através da sua vida. Tenho dentro de mim uma ansiedade, uma inquieta vontade de conhecer profundamente o que rodeia todos os meus passos fechados e tão voltados para o que já se deu a conhecer. Creio e desejo um acaso que quebre com a rotina e me encaminhe para os teus atalhos para que possa caminhar nos mesmos carreiros que tu e guardar no fundo dos olhos as mesmas visões que te ficarão presas para sempre na alma. Concede-me a graça da tua honesta amizade, da tua terna companhia e das tuas deleitosas palavras. És um pássaro majestoso que plana alto sobre a minha cabeça, quero fazer-te um ninho no meu coração. Deita-te no colo da minha ternura quando as preocupações transbordarem os seus limites ou quando o dia de tão feliz que vá corrido estejas cansado de o sentir. Concede-me tudo quanto és e verás florir nos meus olhos as tuas belezas.
Mas passas ao de largo ignorando que no meu peito cresce incessantemente um amor doce por todos os teus gestos, uma afeição desmedida pelo teu sorriso e pelas palavras que te vêm do profundo íntimo. Tenho carinho pela tua imagem e venho com ela gravada em mim ao longo dos dias como um ícone a quem se presta veneração e vai buscar forças. E o brilho que vem ardendo nos teus olhos inflama o meu coração e faz querer mais desse remédio que me cura as tristezas. Ainda que me venhas visitar  agora tão raramente nos meus sonhos desejo sempre a visão do teu rosto e a alegria que vem depois dela.
Toca no teu coração e sente o meu pulsando em uníssono, tenho a alma a acompanhar-te em cada caminho que encetas e estou longe a querer-me perto, onde a imaginação se converteria em sensações e memórias em sorrisos e felicidades eternas.

Por dentro da fachada bonita um interior de ouro.

Vista de dentro do M. N. Soares dos Reis

Mártir Cristão, Joaquim Vitorino Ribeiro
Vista por uma das janelas do Museu

Auto-retrato, José Tagarro

Detalhe do jardim do Museu Soares dos Reis
Firmino, António Soares dos Reis
São José, António Soares dos Reis 
Vista detrás da escultura Conde Ferreira
Detalhe da escultura Conde Ferreira, António Soares dos Reis


Guarnição de corpete


Quando a noite vai descendo ternamente sobre o lar e cobre de mansinho todas as nossas preocupações, alguém se encarrega de alertar que é hora de deitar. E ainda que a televisão convide a uns momentos a sós no sofá da sala, a voz do relógio persiste em dizer que o dia terminou e que a noite foi feita tão somente para descansar das durezas do quotidiano. Vou lentamente em direcção ao quarto e à cama que não quero e sinto que despacho as orações para cair num estado de corrida acelerada de pensamentos aleatórios. Desejo o amanhã intensamente porque não tenho fadigas para descansar e a escuridão é um caminho frustrante para quem apetece a alvura, a pureza das manhãs frescas. 
E quando se está no silêncio da noite, em que nem sequer os bichos querem palrar, ouve-se os relógios a trabalhar com mestria e a apontarem para  o fim, pois em  todas as horas se está algo terminando e principiando outro. A vida estende-se sem agilidade, porque não são dois dias e pode-se caminhar lentamente colhendo os frutos se é a sua estação.  
Há tempo para longas reflexões e memórias esquecidas enquanto o sono não se quer pousar aqui, por causa de uma certa força que me impede de adormecer. Existe uma espécie de ternura nas paredes do quarto que me inunda o coração e me faz desejar levantar da cama e abrir a porta de casa a alguém que fale baixo e ria em silêncio. Talvez até chamar pelos cães para lhes amansar o pêlo felpudinho e ficar a contemplar a cidade na simplicidade da sua nudez. 
Deixo-me estendida a ver de olhos fechados todas estas imagens que se repetem em mim e que são tão doces que chegam a doer. Antes do sono tenho vigor e as minhas ideias estão centradas, as coisas parecem consolidar-se e indicar para soluções gloriosas que me fazem confiar nos amanhãs. Mas a sonolência aproxima-se para me varrer todas as forças e fazer esquecer-me no meio dos cobertores ora mais pesados ora mais leves, conforme a época.
E quando chega a manhã jovem e bela na sua essência mais genuína quero ama-la tão intensamente que me perco nas suas venturas. Os dias correm sem muito rendimento, as forças ficam por se gastar. Quero começar e não sei como. 

A noite vai a meio e tenho medo. Sonhos pesados têm-me perseguido numa corrida desigual e tenho acreditado que não sei destingir o que está dentro e fora da minha cabeça. Enquanto não assento no concreto deixo-me no escuro do quarto frio, mover-me parece uma ideia altamente perigosa e o interruptor que ligará a luz está a um quilómetro de distância. Visiono mentalmente um túnel aberto por onde se podem entrar todos os seres do além e a dado momento decerto algum me puxará o pé. 
Acordo e oro, não sei que pensamentos me poderiam ter trazido sonhos tão aterradores. Algum espírito se estava passeando na minha casa, disposta de forma tão real tal qual como se assemelha na sua veracidade. Foram-se-me as forças e a voz que queria gritar, restaram dores diabólicas e uma família que não se atentava ao meu sofrimento. Corri para o quarto da mãe, deitei-me perto de si asfixiando e entendendo finalmente o que se estava a passar chamou pelo pai que se apressou a vir socorrer-nos com uma cruz. E recordo-me de pensar que seria em vão, tinham que pedir pela presença de um dos nossos padres "Mas estão de férias!", pensei e abri os olhos. Assim estive momentos infindos, de olhos abertos e luz apagada, noite escura como breu. 
Em certo momento aspirei todo o ar e enchi o peito de coragem, liguei as luzes e deparei-me com o quarto exactamente como é de dia. Os espíritos dissiparam-se com a claridade e sosseguei, procurei o sono e não o encontrei. Embalei-me em recordações felizes e adormeci-me ao som de canções da infância.
Kili kili kili 
kili kili kilá
quanto mais a gente ri
bem melhor a gente está
A fundo no património português.











Mosteiro de São Bento, Santo Tirso


Jardim do Mosteiro de S. Bento, Sto. Tirso